quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ser Lésbica

Uma lésbica é a fúria de todas as mulheres condensada até ao ponto de explosão. Ela é a mulher que, muitas vezes numa idade muito jovem, começa a atuar de acordo com a sua necessidade compulsiva de ser um ser humano mais completo e livre que - talvez então mas certamente mais tarde - a sociedade onde vive a deixa ser. Estas necessidades e ações ao longo dos anos, conduzem-na a um conflito doloroso com as pessoas, situações, formas aceitáveis de pensar, de sentir e de comportamento, até se encontrar num estado de guerra permanente com tudo à sua volta e geralmente também com ela própria. Pode não estar totalmente consciente das implicações políticas do que para ela começou como necessidade pessoal, mas num dado plano não foi capaz de aceitar as limitações e a opressão imposta pelo papel mais básico da sua sociedade - o papel de mulher. O turbilhão que ela sente, tende a induzir uma culpa proporcional ao grau em que ela sente não estar de acordo com as expectativas sociais, e/ou eventualmente conduzí-la ao questionar e à análise do que o resto da sua sociedade mais ou menos aceita. Ela é forçada a desenvolver o seu próprio padrão de vida, muitas vezes vivendo grande parte da sua vida sozinha, aprendendo geralmente mais cedo que as suas irmãs heterossexuais acerca da solidão essencial da vida (que o mito do casamento esconde) e acerca da realidade das ilusões. Enquanto não conseguir expelir a pesada socialização que implica o ser mulher, nunca conseguirá estar em paz consigo própria. Porque ela se encontra entre a aceitação da visão que a sociedade tem dela - e nesse caso não se aceita a ela própria - e a compreensão do que esta sociedade sexista fez por ela e porque é funcional e necessário fazê-lo. Aquelas que entre nós que meditamos e tiramos conclusões sobre isso, encontramo-nos do outro lado de uma viagem tortuosa através da noite que pode ter durado décadas. A perspectiva que se ganha dessa viagem, a libertação interior do nosso ser, a paz interior, o amor real por nós próprias e por todas as mulheres, é algo a ser compartilhado com todas as mulheres - porque somos todas mulheres.

Ao longo da História muitas mulheres famosas admitiram serem lésbicas. O conceito da orientação sexual modificou-se muito com o tempo. Sem tratar as relações lésbicas abertamente, na metade do século XVIII, a 'amizade romântica' entre mulheres põe-se na moda na literatura inglesa, quanto ao exemplo da relação entre as 'Senhoras de Llangollen', Eleanor Butler e Sarah Ponsonby, ou a amizade romântica de Sarah Scott, Elizabeth Carter e Catherine Talbot, Anna Seward e Honora Sneyd, ou Mary Wollstonecraft e Fanny Blood. Durante o século XX mulheres famosas não escondiam que eram lésbicas ou bissexuais, como Vita Sackville-West, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Marguerite Yourcenar, Janis Joplin, Martina Navratilova, Susan Sontag e Annie Leibowitz, Amelie Mauresmo, etc. Embora esses sejam exemplos de mulheres que tiveram a voz na sociedade do seu tempo, milhões de lésbicas anônimas fizeram das suas vidas um exemplo que nunca saberemos.

'Alguém, creio, se lembrará de nós no futuro.' (Safo - 640 a.c.)

Mulheres nas Olimpíadas:

terror e humilhação

No passado, para muitas atletas femininas, as semanas que antecediam as olimpíadas costumavam ser um período de terror. Estas mulheres não estavam preocupadas em ganhar as medalhas olímpicas, o que as aterrorizavam era caírem no teste de feminilidade, e serem expostas ao mundo como um homem. Escândalos olímpicos foram usados nesse sentido. Isso começou nos jogos de Berlim em 1936, na era de Hitler, quando a americana Helen Stephens bateu a fabulosa Stella Wash para vencer os 100m, e foi categoricamente acusada de ser um homem. Os médicos germânicos inspecionaram os genitais de Helen e concluíram que ela era uma mulher. Isto pôs fim ao debate, mesmo com crenças de que outras corredoras corriam como homens. Nos anos 80, Stella Wash foi morta durante um roubo e a autópsia mostrou que era ela que tinha genitais masculinos. Nos anos 60, quando a cobertura televisiva das olimpíadas começou, expectadores viram mulheres ganharem medalhas olímpicas, atletas que acreditavam serem homens. Em 1966 os testes de sexo foram introduzidos: atletas femininas eram postas nuas e submetidas a exames ginecológicos. Mais humilhantes foram os testes que em 1968 o ‘Comitê Olímpico Internacional’ tentou introduzir para substituir aos exames ginecológicos, uma verificação para saber se cada competidora possuía os dois XX cromossomos. Os testes de gênero foram perdendo credibilidade. Uma corredora tcheca, de 1930, chamada Zend Koubrova sofreu horrores por ver uma fotografia de seus genitais ambíguos publicados. Ela retornou para sua casa e assim permaneceu reclusa por anos. A polonesa Eva Kobkowsca foi banida dos eventos femininos em 1967 por ter cromossomos XXY, porém nada foi provado. O judô brasileiro enfrentou em 1996 a polêmica em torno de Edinanci Silva. O vôlei entrou no tema em 1997, com Érika Coimbra. Os dois casos, porém, estão distantes da transexualidade. Elas nasceram mulheres, mas tiveram a sexualidade contestada porque apresentavam características de ambos os sexos, excesso de hormônio masculino e precisaram passar por cirurgias reparadoras para competirem como mulheres. A atacante brasileira Érika, jogadora da seleção brasileira foi submetida ao exame durante o mundial juvenil, em setembro de 1997, e teve o resultado positivo. Érika tinha uma má formação dos órgãos reprodutores e teve de ser submetida a uma cirurgia e a tratamento hormonal. Na época, o mexicano Ruben Acosta, presidente da 'Federação Internacional de Voleibol' foi duro: obrigou o Brasil a tirar Érika da competição, sob a ameaça de a equipe ser eliminada do torneio. Acosta afirmou que a sua entidade não seguirá a medida anunciada pelo COI: de abrir as portas das competições para as transexuais. Para Acosta permitir a presença de mulheres transexuais em torneios de vôlei são abusos humanos. O mexicano foi acusado de corrupção e investigado pela Justiça da Suíça e pelo Comitê Olímpico Internacional por uso ilegal de verbas. No início de 2005 a ‘Federação Internacional de Voleibol’ decidiu abolir testes de feminilidade. Os testes nunca provaram que um homem foi mascarado como uma mulher, mas eles traumatizaram mulheres intersexuais. Recentemente o 'Comitê Olímpico' aceitou a ciência moderna que afirma que o gênero não é absoluto. Esta comprovação permitiu a transexuais, pessoas que possuem o gênero cerebral opostos aos genitais, a competirem nas olimpíadas. O COI entendeu que não faz nenhum sentido barrar uma transexual ou os homossexuais nos jogos olímpicos, e concluiu que: quanto mais nós vermos essas pessoas na primeira-classe dos esportes mundiais, profissionais ou não, as pessoas começarão a entender que são o tipo de atletas que nós queremos em esportes, eles são corretos, dignos, trabalham duro, perseguem seus objetivos, não têm medo de serem o que são e são excelente competidores.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Martina Navratilova

A norte-americana Martina Navratilova, nascida tcheca, não tem apenas a maior coleção de títulos e vitórias que o esporte da raquete já viu, brilhante e polêmica, ela é a maior tenista de todos os tempos, não há o que contestar, mas também marcou seus 21 anos ininterruptos de carreira com a luta incansável pelos direitos da mulher no esporte. Nasceu em 1956 em Praga, Tchecoslováquia, foi criada em um subúrbio de Revnice por sua mãe e padastro, seu pai biológico se suicidou quando ela era muito pequena. Magra e atlética, destacou-se nos esportes desde pequena e não ligava de competir com meninos e ninguém nunca a reprimiu por andar com eles, ou por jogar hóquei sobre o gelo ou futebol.

Os pais de Navratilova eram administradores de tênis para o governo tcheco e sua avó havia estado na equipe nacional antes da segunda guerra mundial. Era natural que a ativa jovenzinha orientasse seus passos para o tênis e começasse a levá-lo a sério. Começou como a maioria das crianças, golpeando uma bola contra o muro com uma raquete improvisada, enquanto seus pais jogavam na quadra. Cresceu treinando com o pai e chegou às semifinais do primeiro torneio que participou com 8 anos. Aos 14 anos de idade ganhou seu primeiro torneio nacional e aos 16 foi a primeira classificada na Tchecoslováquia. O caminho até a consagração nas quadras de Wimbledon foi duro, mas ela chegou lá. As suas habilidades para o tênis permitiram que ela visitasse países estrangeiros, inclusive os Estados Unidos para onde viajou pela primeira vez em 1973, apaixonando-se pela comida, em particular pelos ‘hot cakes’, pizzas e hamburgers que a engordaram nove quilos. Nos anos seguintes, após superar seu aumento de peso, Navratilova começou a derrotar as melhores jogadoras do mundo. Sentindo-se cada vez mais sufocada com a administração de sua carreira pelo governo checo desertou para os Estados Unidos em 1975, pouco antes de completar 19 anos.

Homossexual assumida, Martina quebrou todas as fronteiras e foi uma das pioneiras na defesa dos direitos das mulheres homossexuais. Para ela, uma lésbica tem maiores problemas para viver nos Estados Unidos do que na Europa. Ao mesmo tempo em que participou de campanhas pela liberação sexual e se envolveu na política, destruía nas quadras suas grandes rivais. Agora, com vergonha do presidente George W. Bush obteve novamente a cid

adania tcheca. Martina Navratilova é fascinante. Sempre rigorosa consigo mesma, ela se mostra por inteiro, não foge e investe contra os preconceitos com a m

esma garra que empunha uma raquete.

patricia highsmith

Patricia Highsmith

Patricia Highsmith transformou criminosos em heróis e crime em romances psicológicos, rompeu com os conceitos básicos do policial e inverteu o clássico final ‘castigo para o criminoso’. Com seus livros traduzidos em 20 línguas, os seus thillers criminais psicológicos, ainda hoje, encantam leitores no mundo inteiro e tem os melhores elogios da crítica. O seu primeiro livro, ‘Strangers on a Train’ (‘Pacto Sinistro’), teve várias adaptações para o cinema, sendo a mais famosa a de Alfred Hitchcock. O filme ‘The Talented Mr. Ripley’ (‘O Talentoso Ripley’), com o insípido Matt Damon, foi a segunda adaptação do livro homônimo de Patricia Highsmith, a primeira foi ‘Plein Soleil’ ('O Sol por Testemunha’) com Alain Delon interpretando o papel principal. Patrícia torceu o nariz para as duas adaptações, na primeira, o diretor fez o amoral Tom Ripley sentir culpa de seus crimes, e culpa é algo que não existia para o personagem. Na versão francesa, que teve a melhor interpretação do anti-herói, mesmo assim irritou a autora, porque o final da historia foi alterado, Ripley acaba preso. Para Patrícia não interessava que a trama fosse um quebra-cabeça que culminasse com a descoberta do assassino, ela usava o crime como mote para mergulhar em aspectos perturbadores da psicologia humana. Interessavam-lhe, sobretudo, as condutas amorais. Nascida no Texas, mas radicada na Europa onde viveu a maior parte da sua história, Patrícia Highsmith nunca escondeu que seus livros estão impregnados de fantasmas pessoais, atormentada por traumas de infância e que tinha uma relação problemática com sua sexualidade. Até o fim da vida ela guardou mágoa da mãe, que tentou abortar seu nascimento ingerindo terebentina e mais tarde reprimiu o quanto pôde a lesbiandade da filha. Patricia só conheceu seu pai biológico aos 12 anos e, na ocasião, ele tentou abusar dela sexualmente. Na adolescência, a escritora sofreu de anorexia, fato que mais tarde atribuiria ao desejo de fugir de sua própria personalidade. Patricia HighsmithAdulta, tornou-se um poço de melancolia e contradições. Embora tenha vivido uma infinidade de relações com mulheres, tinha dificuldade em estabelecer ligações duradouras. Em alguns momentos, chegou a freqüentar o psicanalista com o objetivo de se tornar heterossexual. Apesar de lésbica, Patricia declarava ter horror à convivência com a categoria: seu par romântico ideal, dizia, eram as mulheres casadas. Curiosamente, a escritora foi acusada de misoginia pelas feministas. Elas alegavam que Patricia tinha um prazer perverso em descrever assassinatos brutais de mulheres. Patrícia Highsmith foi uma das grandes damas do suspense e seu legado é composto de livros ricamente elaborados a respeito da tênue linha que separa os bons e os maus. Crueldade com elegância era o principal ingrediente de suas tramas policiais.

Um Dos mais Famosos de seus livros é o preço do sal ou Carol

O livro é um

a história de amor lésbico um tanto conturbada. Durante a maioria das páginas do livro o leitor se encontra com raiva da protagonista. A protagonista é uma cenógrafa de 19 anos chamada Therese, que mora em Nova York sozinha em um micro apartamento, e que inicialmente namora um mala sem alça de origem russa pelo qual ela não sente praticamente nada. Carol é uma mulher bem mais velha que ela, mãe e que está se divorciando. Elas se conhecem em uma loja de departamentos e a guria de 19 anos se apaixona por ela.

Quando elas saem para viajar juntas de carro é quando descobrimos o que inspirou Nabokov. É mais um guia de viagens pelos EUA. Felizmente, ela descreve muito menos o ambiente do que Nabokov. Mas infelizmente, todas as cenas de interação das duas poderiam ser resumidas a umas quatro ou cinco.

O final do livro, graças a deus, surpreende. E surpreende bem na hora que tu acha que Manoel Carlos encarnou na Patrícia Highsmith. Não contarei o final. Não pouparei ninguém do guia de viagens. Nem de ficar com raiva da cenógrafa. Boa sorte.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Dorothy Arzner

Do set para as câmeras, a primeira diretora lésbica assumida de Hollywood

Dorothy Arzner nasceu em 1897 em São Francisco. Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, a jovem Dorothy achou que seu destino era ajudar seu país e decidiu alistar-se nas forças armadas, no campo de batalha, foi motorista de ambulância. Dorothy Arzner se formava em medicina quando visitou pela primeira vez um estúdio de cinema. Em Hollywood no início do século 20, mais precisamente em 1919, ela deu o primeiro passo para as telas, quando pleiteou um emprego como datilógrafa e revisora de roteiros. Conseguiu emprego na Paramount e seu primeiro cargo foi o de secretária, para em seguida subir para o cargo de editora de filmes. Sete anos depois, com 27 anos de idade, ameaçou pedir demissão que não foi aceita, e passou então do set de filmagens para direção de filmes, a primeira mulher a ocupar este cargo em Hollywood. Dorothy era uma figura marcante, conhecida por usar trajes masculinos e de personalidade arrojada, a diretora fez vários filmes e suas atrizes preferidas eram Katharine Hepburn, Lucille Ball e Joan Crawford, com esta última provocava rumores no estúdio. Ela chamava a atenção e o fascínio das mulheres, e das feministas que começavam a articular o movimento de libertação da mulher americana. Dorothy estreou como diretora no filme "Fashions for Women". Em sua carreira Arzner dirigiu 17 longas metragens do cinema mudo, e até os dias de hoje é reverenciada por cineastas feministas dentro e fora dos Estados Unidos. Em 1937, dirigiu Joan Crawford em "Felicidades de mentira", que se tornou um de seus filmes mais famosos. A obra mais feminista de Arzner foi "Assim amam as mulheres", de 1933. Dentre as adaptações que fez para as telas, encontra-se a obra "Nana", de Emile Zola. O primeiro filme a chamar a atenção foi o lendário “Dance, Girl, Dance” de 1940 ao abordar as tintas da homossexualidade em mulheres fortes e fatais quase tangendo a marginalidade. Seus roteiros incluíam mulheres tematicamente quase marginalizadas, e obviamente incorporando sua visão como lésbica do universo feminino, seus filmes revolucionários mostram sempre mulheres fortes em oposição ao estereótipo da mulher submissa dos anos 20 nos Estados Unidos. Dorothy vivia em companhia das mulheres e era constantemente flagrada pelos fotógrafos abraçada a Marlene Dietrich, Rosalind Russel, entre outras estrelas ou então por evidenciar no olhar um brilho especial quando em sua companhia. Dorothy Arzner, além de ter introduzido o microfone boom (o de teto), em seu último filme, "Crepúsculo sangrento", de 1943, fez propaganda anti-nazista. Neste mesmo ano interrompeu, abruptamente, seu trabalho como diretora, abandonando de vez o cinema, nunca se soube a razão, mas segundo as biografias, Dorothy era extremamente rígida, quando achava que não realizaria um filme a seu modo, preferia entregar a tarefa a outro diretor. Após abandonar o "set" de filmagens, deu aulas de cinema na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e um de seus mais famosos alunos foi Francis Ford Coppola. Após este período, ela montou uma escola de cinema, onde realizava filmes comerciais para a Pepsi-Cola através da grande amiga e atriz, Joan Crawford, que inclusive eram vistas na época como caso. A primeira lésbica assumida de Hollywood foi a primeira mulher a ser admitida no ‘Directors' Guild of América’ e durante algum tempo foi a única diretora dos mais famosos estúdios de Hollywood e deixa um verdadeiro legado de talento e coragem imprimindo a sua verdade.

Tamara de Lempicka

'Art Déco’, palavra de origem francesa é abreviação de ‘arts décoratifs’, e refere-se a um estilo que afetou a arquitetura, o design e as artes plásticas na década de 20. Edifícios, esculturas, jóias, luminárias, móveis, tudo é geometrizado e luminoso. De todos os artistas, a bissexual Tamara de Lempicka foi uma notável e memorável pintora da ‘art déco’ e também muito influenciada pelo cubismo. Nascida Maria Gurwik-Górska, perto de Varsóvia em 1898 em uma família abastada da Polônia, seu pai era um advogado judeu-russo e sua mãe uma socialite de origem polaca. Estudou em colégio interno na Suíça, e com 20 anos casou-se pela primeira vez com o solteiro mais cobiçado, o advogado Tadeusz Laempicki que conheceu num baile de máscaras. Um ano depois da Revolução Russa fugiram para Paris. Após o nascimento de sua filha Kizette, adota o nome Tamara e vai estudar pintura e é onde a fantástica história de Tamara de Lempicka começa. Instalada em Montparnasse, logo fez-se famosa entre a nata da sociedade parisiense. ‘La belle polonaise’, como era chamada, torna-se um exemplo de mulher moderna e elegante, transforma-se numa verdadeira diva, tanto que, pegando carona em seu sucesso, a empresa Revlon, fabricante de cosméticos, lhe dedica uma marca de batom. Criadora de um estilo sensual e muito sofisticado que produziu efeitos de desejo e sedução, Tamara de Lempicka foi uma das protagonistas daqueles ‘loucos anos 20’. A sua paixão pelas tintas fortes e de cores iluminadas, expõe de forma crua e fria, os sentimentos e emoções, extravagância e sensualidade, expressando erotismo em seus quadros. Reflexo dela própria, uma personalidade amante dos excessos. Em sua obra, a mulher aparece ora ultra-feminina, ora masculinizada, mas sempre forte. Divorciada do primeiro marido casa-se com um rico aristocrata húngaro, o Barão Raoul Kuffner, e com a ameaça de uma segunda Guerra Mundial, mudam-se para Nova York. Bela, emancipada, moderna e escandalosa, personagem das noitadas nova-iorquinas, sua vida e sua obra trafegaram entre hotéis de luxo e automóveis conversíveis. Assumiu publicamente sua bissexualidade e teve inúmeros casos com amigos, modelos e desconhecidos. Tudo com muito esplendor que camuflavam o abuso de cocaína, as dificuldades nas relações com a sua filha, com quem nunca conseguiu manter uma relação equilibrada, a depressão, e, por fim, a solidão que também é expressa em suas telas. Após a morte do seu marido muda-se primeiro para o Texas e depois para o México onde viria falecer e conforme expresso em seu testamento, suas cinzas foram dispersas, pela filha, sobre o vulcão Popocatepetl. Entre os admiradores e colecionadores de sua obra figuram personalidades como o ator Jack Nicholson e a cantora Madonna, que a homenageia nos videoclips de ‘Express Yourself’ e ‘Vogue’. 'Para aqueles que, como eu, vivem à margem da sociedade, as regras habituais não têm qualquer valor', esta frase define claramente o espírito e a postura ao longo da sua vida e obra.

radclyffe hall e una troubridge

viveram 28 anos juntas

Radclyffe Hall (esquerda) nasceu Marguerite, mas para os íntimos era apenas John. Vestia-se elegantemente, tinha modos aristocratas e comportava-se como uma boa inglesa de linhagem notável. Dizia pertencer ao ramo que descendia de Shakespeare. Além de nome de homem, Hall gostava de vestir-se como um e adorava posar com calça de montaria e cigarro no canto da boca. Ela era acima de tudo uma amante à moda antiga, que acreditava em fidelidade e no casamento. Mas depois de alguns anos casada com a cantora de ópera aposentada Mabel Batten, começou a se envolver com uma mulher chamada Una Troubridge, prima de Mabel. O romance secreto foi ficando cada vez mais quente e Hall, por uma questão de dever, resolveu contar a verdade para sua esposa: havia se apaixonado por Una. Não se sabe se Mabel engasgou, pois estavam jantando, ou se pelo susto levantou-se de repente, teve um ataque e caiu em coma, vítima de um derrame. Mabel morreu alguns dias depois. Hall afundou-se em sentimentos de culpa e não conseguia mais manter relações íntimas e sexuais com Una. Então, foram procurar a espírita Gladys Leonard para contatar a falecida Mabel e tentar explicar para a pobre alma os motivos daquela traição. Para surpresa de ambas, durante a sessão a falecida se manifestou, perdoou as pombinhas e ainda disse a Hall que Una era a melhor esposa que ela poderia desejar para si - já que ela, Mabel estava morta mesmo.

Una Troubridge realmente transformou-se na melhor esposa que Hall poderia desejar: amante, secretária, tradutora, agente, empresária, dona-de-casa e relações públicas numa só pessoa. Com a ajuda de Una, Radclyffe Hall tornou-se, durante a década de 20, uma das escritoras que mais vendiam livros na Inglaterra. Depois, vieram os prêmios e o prestígio. Encorajada pelo seu sucesso e por sua posição privilegiada Hall decidiu então escrever um romance "em defesa das mais mal interpretadas almas do mundo: os invertidos!". Nascia assim "O Poço da Solidão", (sinopse aqui) certamente o romance lésbico mais importante do século. Tudo começou a acontecer muito rapidamente: num espaço de quatro meses o livro foi sucesso de vendas, criou polêmica e virou objeto de um processo legal que agitou a Inglaterra. Trinta anos depois de Oscar Wilde, a homossexualidade virava notícia novamente. Se por um lado a intelectualidade inglesa mobilizava-se em torno da questão da liberdade de expressão, por outro lado nunca a Inglaterra ouviu tanto a palavra "invertido". Em novembro de 1928 "O Poço da Solidão" foi finalmente proibido, acusado de obscenidade. Mas de obsceno o livro não tinha nada. Nem uma só cena de sexo. Era um livro comportado, que pretendia mais esclarecer que escandalizar. Hall queria provar uma tese recente e inovadora, de que a homossexualidade era inata. Portanto, não poderia ser considerada crime ou doença e deveria ser encarada com mais compaixão pela sociedade, cujo dever era acolhê-los e não rechaçá-los. Então, escreveu um romance onde a heroína lésbica acaba jogando a sua amada nos braços de um homem, para poupá-la do escárnio público: um sacrifício por amor bem ao estilo de seus outros romances açucarados que haviam feito tanto sucesso anteriormente. Apesar da proibição, o livro foi contrabandeado como droga afrodisíaca para a Inglaterra e Estados Unidos - onde também sofreu restrições - e virou cult nos países onde circulava livremente. Vendeu nas duas décadas seguintes uma média de 100.000 exemplares ao ano no mundo inteiro e é um fenômeno editorial que continua a ser reeditado e vende bem até hoje - um verdadeiro clássico. Depois do escândalo do julgamento, a carreira de Radclyffe Hall sofreu um baque. Apesar de não ter sido julgada - pois lesbianismo não era considerado crime - ela nunca mais emplacou um sucesso. Hall acreditava que a sociedade inglesa fosse capaz de tolerar e aceitar a homossexualidade. Errou. Era cedo demais. No entanto, conseguiu fazer com que todos falassem do amor que até então não ousava dizer seu nome. Marguerite Radclyffe Hall - John para os íntimos - morreu em 1943, aos 63 anos, de câncer. Ainda estava casada com Una. Mas não viveu para ver seu livro liberado na Inglaterra em 1949.

RadclyffePara escrever O Poço da Solidão, Radclyff Hall baseou-se em um conjunto de trabalhos teóricos escritos por sexólogos europeus durante a segunda metade do século XIX, que enfatizam as origens congênitas da orientaçào sexual. Hall foi influenciado principalmente pelo trabalho de Havelock Ellis. Herdeira de uma familia tradicional e batizada com nome de homem por impulso d pai, Stephen e uma "invertida ", discriminada por seus gestos e sua aparencia masculinos. Expulsa de casa, viaja pela Europa ate encontrar no front da Primeira Gerra outras mulheres iguais a ela. Publicado pela primeira vez em 1928. O poco da solidao foi inicialmente considerado obsceno, mas a polemica serviu para despertar a atencao do publico britanico para a questao do lesbianismo.

rosely roth

Rosely foi a principal mentora e articuladora da manifestação no Ferro’s Bar, cuja militância excepcional iluminou os sombrios anos 80

"Elas viviam silenciadas, o prazer era profano aos outros olhos, mas elas se amavam intensamente, sob a luz da lua e dentro de seus quartos, com as luzes acesas, e, por um único instante, se esqueciam do mundo, das dores, dos filhos, das roupas para lavar e da constante obrigação de se anularem cada vez mais. Muitas mulheres nasceram, casaram-se, tiveram filhos, foram escravizadas e morreram em função de uma sociedade patriarcal, machista, mas não se esqueciam nunca de sua mente capaz, de seu coração ardente e do seu sexo pulsante. Umas acreditaram que nada podiam fazer, outras foram à luta para poderem acontecer. Essas mulheres, amantes, mães, trabalhadoras, deusas, aos poucos foram conseguindo seu espaço, sua inclusão na sociedade, viveram e morreram, para nós hoje podermos desfrutar de intensa liberdade. Elas saíam à luta, à guerra todos os dias, reivindicando um direito que a elas era negado: o direito de amar. Amar não um amor imposto, obrigado e escravizado, mas um amor puro vindo delas mesmas, o poder de decidir a quem amar, escolher seus homens ou ficarem sozinhas, ou até mesmo o direito de amar umas às outras. Por que não? Por que limitar o amor a uma classe, um grau, um gênero? O amor dessas mulheres foi tão longe e tão intenso ao ponto de perceber que se podia amar uma irmã, seu corpo, seus gostos, seus defeitos, seus jeitos e seu sexo. Essas guerreiras, amantes entre si, se espalharam por todos os lugares, irradiando as diversas possibilidades a todas as mulheres do mundo, que aos poucos foram se libertando das amarras impostas, e hoje vivem com orgulho de serem livres, de serem lésbicas e de possuírem o dom supremo do amor. Rosely Roth foi uma dessas mulheres. Lésbica, militante e guerreira, brigou com unhas e dentes e ao mesmo tempo com simplicidade e amor para viver em uma sociedade mais justa e respeitadora. Quando o Brasil se calou e se curvou diante de Figueiredo e seu governo ditador, Rosely se ergueu diante da multidão e levantou com ela dezenas de outras mulheres que também acreditavam que podiam mudar o mundo. Em uma ocasião Rosely Roth foi ao programa da apresentadora Hebe Camargo, ao vivo, em rede aberta, defender uma filha lésbica de uma mãe homofóbica. A mãe, revoltada, estava a ponto de agredir Roseli, que permanecia calma e serena, apesar de possuir todos os motivos para revidar os insultos e provocações dirigidos a ela. Após o ocorrido, o programa ficou proibido de ir ao ar ao vivo. A apresentadora, então, comprou a briga, dizendo que ela não tinha culpa por Roseli Roth ser uma lésbica inteligente, o que fez com que todo o Brasil acompanhasse o caso, dando muito crédito à comunidade lésbica."

(texto de Alessandra Guerra)

Em 21 de agosto de 1959, em tradicional família judia, nascia Rosely Roth. Em 1981 formou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), em 1985/86 pós-graduou-se em Antropologia na UNICAMP. A partir de 1981, iniciou a sua participação como ativista nos grupos "Lésbico-Feminista/LF" e "SOS Mulher", no final deste mesmo ano, fundou, com Miriam Martinho, o "Grupo Ação Lésbica-Feminista/GALF". No ano seguinte, deixa o "SOS Mulher" e passa a se dedicar somente ao GALF, onde se destacou por seus manifestos e artigos nas publicações “ChanacomChana” e “Um Outro Olhar”, e pela organização de debates com grupos feministas, homossexuais e de negros, com políticos, e também por sua participação em manifestações, encontros, congressos, incluindo pela sua presença na mídia, se assumindo publicamente como lésbica. Em 28 de agosto de 1990, morria Rosely Roth, com apenas 31 anos de idade.

Porque prestar homenagem à Rosely Roth?

(MixBrasil) - “Num período em que nenhuma outra mulher o fazia e o ativismo LGBT era alimentado pela simples consciência e idealismo e não por verbas de organizações governamentais e outras instituições, ela se expôs com a cara e a coragem em inúmeros espaços, passando uma imagem super-positiva das mulheres homossexuais, numa militância insuperável até os dias hoje”.

(Miriam Martinho) - “Rosely Roth foi pioneira no que se convencionou chamar de “política da visibilidade” em uma época (década de 80) em que, com raras exceções, ninguém mais o fazia, aliando aparições públicas, geralmente marcantes, a uma fundamentação teórica que lhe permitiu ir além do ramerrão vitimista e reformista que muitas vezes caracteriza o discurso e as atividades dos grupos sociais discriminados. As profundas crises emocionais que a levaram ao suicídio, em agosto de 1990, em nada empanam o brilho de sua trajetória política que se destacou pela coragem, pelo dinamismo e pela coerência discursiva.”

(Rede de Informação “Um Outro Olhar”) - “Na década de 90, a visibilidade ganhou as páginas dos jornais, os programas de TV e até as ruas, em manifestações de orgulho cada vez maiores e com várias pessoas dando as caras, mas até hoje, não surgiu que superasse em excelência, Rosely Roth como a ativista lésbica do Brasil. O trabalho da "Rede de Informação Um Outro Olhar", em suas atuações pela saúde e os direitos humanos das mulheres (em particular das lésbicas) e das minorias sexuais é dedicado à sua memória. Da mesma forma, em sua homenagem, decidimos marcar o dia 19 de agosto, dia da manifestação no Ferro’s Bar, chamada pelos ativistas da época de nosso pequeno Stonewall Inn, como Dia do Orgulho Lésbico Brasilero. Assim também, prestamos nosso tributo ao Ferro’s, fechado no começo de setembro (2000) que, por 38 anos, foi palco de tantas histórias de amor, de tantas histórias políticas e culturais das lésbicas não só paulistanas como de todo o país."

Frida kahlo

Movida pelo amor, movida pela dor, a vida de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon foi um tumulto desde o princípio: aos seis anos contraiu poliomielite e isso a deixou capengando de uma perna. Sofreu um acidente ao sair da adolescência, em um ônibus, onde além de fraturas generalizadas, foi perfurada por uma barra de ferro que entrou pela bacia e saiu pela vagina. Sofreu dezenas de cirurgias ao longo da vida, por conta disso a sua saúde sempre foi frágil. Depois do acidente, Frida recebeu da mãe material de pintura. Como não podia levantar-se, olhava para si mesma, na cama, através de um espelho pendurado e assim começou a pintar em um estilo surrealista e primitivista. As cores são fortes e as imagens chocantes, brutais. ‘Eles dizem que minha arte é surrealista, mas como ser, se tudo o que mostro em cores é minha própria vida?’

A pintura de Frida é a sua própria história, da sua dor e angústia. Ainda por conta do acidente, não podia ter filhos e essa frustração foi amplamente retratada em sua obra. O que Frida pintou foi o seu sofrimento, suas feridas, sua dor, o seu próprio sangue, pode-se ver o seu corpo mutilado, cortado, sofrido, carregado das cicatrizes que o retalharam. Tinha uma completa dependência emocional do marido, Diego Rivera, a quem amou profundamente e com quem levou uma vida instável e tumultuada. As fases ruins com Rivera pioravam a sua saúde. O marido tinha amantes e ela também. Dos dois sexos. Para Rivera, as relações homossexuais de Frida eram perfeitamente permitidas, o mesmo não acontecendo com as relações heterossexuais, mas ela as mantinha assim mesmo. Sofreu como poucas mulheres sofreram em suas vidas, com traições, frustrações e solidão - como se não bastassem as mutilações e as 35 cirurgias que fez ao longo de 30 anos, aproximadamente. Teve momentos de felicidade, onde sorria com muita freqüência e expressava-se com palavrões ditos sonoramente com sua voz profunda. E levou uma vida sexual variada e intensa, difícil até de se imaginar como, por conta da média de uma cirurgia por ano. É importante que se diga que Rivera era o mais importante pintor mexicano naquele tempo e só depois, com a redescoberta de Frida mais recentemente, ela pode equiparar-se a ele em termos de fama e reconhecimento. Foi Rivera, após a morte da esposa, que fundou o museu em sua homenagem para preservar a obra 'da mais importante pintora mexicana'. Frida morreu aos 47 anos, em 1954, no seu México de nascimento e adoração, morreu de uma overdose de medicamentos ou de uma pneumonia - não está completamente esclarecido, suspeita-se de suicídio, mas isso também não é certo. Por muitos anos escreveu um diário carregado de confissões, poemas e desenhos, quase sempre alegres, mas onde também fala do seu terrível sofrimento. Morreu com dores terríveis e só a morte a livrou do sofrimento. Pouco antes de morrer, deixou dito: ‘Tomara que nunca mais eu precise retornar’.

Um rosário de lindas e inteligentes mulheres passou pela cama e marcou presença no coração da genial Frida Kahlo. E como se não bastasse a sua força de viver diante dos infortúnios, ela deixa acima de tudo, um legado que não tem preço: a sua desenvoltura diante do amor, do sexo e do prazer. Tanto o seu envolvimento com mulheres quanto com homens era sem culpa. Tem-se nessa Deusa Azteca não somente uma autodidata do surrealismo, mas também a Frida mulher, bissexual sempre dada ao prazer. Não lhe escapou ao coração a estonteante atriz Dolores Del Rio como tantas outras do seu itinerário de conquistas. A atrofia física não lhe ofuscava o espírito. Era uma sedutora nata. Mulher bonita à sua época, tanto por homens quanto por mulheres era cobiçada. Deixou um legado maior que a sua reconhecida e concorrida obra, a sua personalidade avassaladora. Tênue a sua saúde, mas impulsiva a sua coragem e o seu apego à vida. Esta é a Frida Kahlo da heróica resistência do corpo, a mexicana da alma inquieta que soube conduzir tão bem uma paixão. De uma curta, mas intensa existência. Assim foi e continua sendo Frida Kahlo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Susan B. Anthny

feminista que tirou as mulheres da cozinha, a mãe de todas nós. Susan B. Anthony (foto da esquerda) foi a maior defensora dos direitos das mulheres numa época em que elas eram consideradas cidadãs de terceira classe. Nascida em 1820, Anthony se engajou na luta feminista em 1851 com o intuito de corrigir vários erros da sociedade vitoriana. Querem ter uma idéia da penúria em que se encontrava o dito 'sexo frágil' na América do século XIX? Vamos lá: as mulheres não tinham direito à propriedade, ou seja, não podiam registrar nenhum bem em seu nome; não tinham direitos sobre os próprios filhos, que podiam ser arrancados de seus braços se os seus maridos assim o desejassem; deviam obedecer aos seus pais, maridos e irmãos, o que significava, na prática, que eram propriedade dos homens de sua família; as operárias ganhavam uma miséria comparada à paga dos homens e geralmente a jornada diária chegava a ter 16 horas; as poucas abastadas que conseguiam estudar cursos superiores não podiam exercer a sua profissão, pois o mercado de trabalho era totalmente fechado a elas e, finalmente, nenhuma mulher, rica ou pobre, branca ou negra, podia votar.Pouco a pouco, com a ajuda de um pequeno exército de mulheres briguentas, Susan B. Anthony conseguiu que todas essas restrições fossem eliminadas. Sua primeira conquista foi a regulamentação do direito à propriedade, mas sua principal ambição - o direito ao voto - só foi instituído depois de sua morte. No entanto, tão grande era o débito do povo americano ao empenho desta mulher que a décima nona emenda, que garantiu o voto às mulheres, é conhecida até hoje como a 'emenda Anthony'. Um outro aspecto de Susan era sua aversão aos homens e seu amor pelas mulheres. De tanto odiar a sociedade patriarcal em que vivia, Anthony resolveu que jamais iria se casar e, de fato, permaneceu solteira para o resto de sua vida. Mais que isso, muitos historiadores especulam que Anthony pode ter tido algumas relações lésbicas, principalmente na idade madura.Algumas de suas cartas para a jovem Anna Dickinson (foto da direita), a mais bela e cativante oradora feminista da América, atestam um amor quase carnal: 'Anna, querida, quisera pudesse apertá-la forte em meus braços neste exato momento', ou quando a convidava para a sua cama, que dizia ser 'grande o bastante e boa o suficiente para acolhê-la'. Dickinson, por sua vez, retribuía cada palavra e gesto afetuoso de Anthony, a quem admirava profundamente, escrevendo cartas igualmente apaixonadas: 'Eu realmente quero te ver, muito, segurar tuas mãos nas minhas, ouvir tua voz, em suma, eu te quero - será que posso te ter?'.Este tipo de ligação apaixonada entre uma mulher mais velha e uma jovem era bastante comum entre as sufragistas americanas. Muitas delas, assim como Anthony, não se casavam porque julgavam que as obrigações de esposa inviabilizariam sua dedicação à causa. Assim, sem maridos para sustentá-las (ou prendê-las), essas mulheres se apoiavam umas nas outras. Se havia sexo nestas relações apaixonadas era impossível saber, devido à extrema discrição e os perigos de difamação que rondavam estas mulheres, apenas por serem feministas.Essas associações íntimas entre duas mulheres eram também chamadas de 'amizades românticas' ou 'casamentos bostonianos' e eram tão fascinantes que muito se escreveu sobre elas. Dizem que Henry James inspirou-se nas próprias Susan B. Anthony e Anna Dickinson para compor as personagens Olive Chancellor e Verena Tarrant, respectivamente, em seu romance 'The Bostonians'. Musa inspiradora de gênios como Gertrude Stein e Henry James, sinônimo da emancipação feminina, Susan B. Anthony foi uma mulher controvertida e apaixonante. Não à toa, Gertrude Stein a eternizou como 'A Mãe de Todas Nós'. Não seríamos nem metade do que somos não fosse sua raivosa, às vezes equivocada, mas bem sucedida luta por nossos direitos e seu incondicional amor pelas mulheres.

Soraya Bittencourt

uma brasileira e lésbica que mudou a percepção feminina no mundo da engenharia eletrônica e da computação no Brasil. De família pobre, porém batalhadora, Soraya Bittencourt, é uma homossexual brasileira que quebrou preconceitos desde os anos 70 ao ingressar em uma universidade pública no Rio de Janeiro para se formar em engenharia, profissão genuinamente masculina para a época.Desde muito cedo, Soraya já apresentava traços bem diferenciados que as meninas da época, sua diversão preferida era desmontar e montar utensílios domésticos e também criar invenções a partir de sucatas, como seu primeiro invento: um projetor de slides, feito a partir de uma saboneteira e uma lanterna. Trabalhou e provou que engenharia e máquinas eram também para garotas e, aos 21 anos, já estava em um bom posto na Sousa Cruz. Depois trabalhou na Embratel e foi responsável por acionar o motor apogeu que colocou em órbita o Brasilsat 1, o primeiro satélite do Brasil que mudou o sistema de telecomunicações brasileiro. Permitiu que qualquer lugar do nosso pais recebesse as noticias diárias da televisão assim como sinais telefônicos e de rádio. Soraya também introduziu lasers para o entretenimento no Brasil e participou com a NASA na recuperação de dois satélites. Até se tornar uma das melhores profissionais de desenvolvimento da Microsoft, hoje a maior potência na área de tecnologia em software.Vinda de um casamento fracassado, Soraya encantou-se por algumas garotas e passou a ter plena convicção de que seus desejos afetivos e sexuais eram por mulheres. Encarou o preconceito de uma separação e foi morar com uma “amiga”, Lucila. Soraya então decidiu ir viver nos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de vida, sobretudo em sua carreira profissional, e então convenceu Lucila a imigrar com ela. Naquele país, começaram fazendo faxinas e lavando pratos até que, conseguindo legalizar-se retornou a sua profissão de origem, engenharia de sistemas e computação, e trabalhar em uma pequena empresa de tecnologia, onde foi bem sucedida.Em seguida, abriu uma loja de serviços de informática em Boston e, após o assédio de grandes empresas, transformou-se em diretora de software na ‘Number Nine Corporation’, gerente de Engenharia de Produtos Multimidia na ‘Lotus Development’ e mesmo sendo mulher, latina e lésbica, conseguiu atrair a atenção de Bill Gates e desenvolver um projeto de sucesso na empresa mais competitiva do mundo. Na Microsoft criou a primeira agência de viagens na Internet a ‘Expedia.com.’ que revolucionou o mercado turístico e transformou a maneira de comprar passagens e fazer reservas em hotéis, usando somente a internet. Sua especialidade reside em desenvolvimento de aplicativos, para a Internet e para aparelhos portáteis como o telefone celular ou o Pocket PC. Ela possui uma série de patentes nessa área.Atualmente ela é Chief Executive Officer e fundadora da ‘Nutrihand Inc’. A missão da Nutrihand é fornecer tecnologia pela internet para gerenciamento da saúde, fornecendo aos consumidores ferramentas para prevenir e gerenciar doenças, como a hipertensão, diabetes, obesidade, problemas renais, e outras. Profissionais de saúde usam os serviços para servir melhor seus pacientes, monitorar o tratamento a distância, interferir quando necessário e atingir melhores resultados a baixo custo.Após anos lidando com diabetes e sendo incapaz de encontrar qualquer solução que possa ajudar a gerenciar essa doença, Soraya decidiu criar uma empresa que tivesse como foco a criação de ferramentas para melhorar a vida dos diabéticos não só como ela, mas também de pessoas que sofrem de outras doenças crônicas. Fora do trabalho, Soraya toca bossa nova e jazz no saxofone. Trabalha também com a comunidade para ajudar na luta contra a AIDS, e na luta pelos direitos iguais para todos. É também, autora do livro ‘Uma vida de sucesso – como uma homossexual se deu bem na Microsoft’, um relato biográfico autêntico e inspirador de uma mulher que foi atrás do que queria. No livro, ela revela como driblou preconceitos e tornou-se uma milionária da indústria de tecnologia americana, e conta detalhes curiosos sobre o mundo da informática no Brasil e nos Estados Unidos, as dificuldades que os brasileiros enfrentam num país estrangeiro e o desafio de se deixar um casamento heterossexual para assumir um relacionamento homossexual.

A homossexualidade no decorrer da história

Grécia Antiga
A palavra homossexual é originária do século XIX a partir do grego ‘homo’ (igual) e do latim ‘sexus’. Portanto, na Grécia Antiga tal expressão inexistia, existia a pederastia, que para os gregos era o amor de um homem maduro por um adolescente. A relação também incluía a questão do status social, nesse sentido o homem deveria ter ascendência intelectual, cultural e econômica sobre o adolescente. Afinal, ele complementaria a formação do jovem, iniciando-o nas artes do amor, no estudo da filosofia e da moral. É com o advento do cristianismo que essas relações passam a ser vistas como pecaminosas. Havia todo um ritual envolvendo a aproximação do homem que estivesse interessado por um adolescente. A ‘corte’ era necessária para que a relação tivesse o caráter de bela e moralmente aceita. Os papéis nesse caso eram bem definidos, o homem (erastes) fazia a corte e o adolescente (erômeno) era o cortejado, podendo deixar-se conquistar ou não. A pederastia entre dois homens adultos não era comum e, quando ocorria, era reprovada, pois um homem não podia ser passivo com outro homem, muito menos se este fosse um escravo ou de classe inferior.O casamento era monogâmico, não por razões religiosas, mas seculares. O fato do homem ter uma esposa não o impedia de se relacionar com um adolescente. E nem o fato de se relacionar com o adolescente significava o fim do seu casamento. A pederastia dificilmente alterava a imagem do homem perante a sociedade, pois o amor ao belo, ao sublime e o cultivo da inteligência e da cultura não tinha sexo. Condenável era a busca do sexo pelo sexo. Quando os gregos escreviam sobre o amor entre os homens eles o exaltavam como a mais alta forma de afeição. Ele incluía uma ligação emocional, uma profunda amizade, valores em comum e um compromisso em torno de uma tarefa. Sexo não era o ponto principal do relacionamento, e sim a virtude.
A homossexualidade feminina também teve seu lugar na Grécia Antiga. Ao homem era permitido o relacionamento extra-conjugal, ao contrário da mulher, que não tinha mais direitos políticos e legais que um escravo. Não recebiam qualquer tipo de educação formal e eram obrigadas a passar a maior parte do tempo nos aposentos destinados a elas em seu lar submetendo-se a casamentos arranjados. Nem sempre as esposas negligenciadas se queixavam. Algumas, a despeito das dificuldades, conseguiram encontrar consolo em outra parte. Não obstante, a maioria parece ter recorrido a expedientes menos arriscados da masturbação ou homossexualidade. As mulheres homossexuais eram designadas pelo nome de ‘tríbades’, que significa ‘pessoa que se esfrega’. Existem referências a um objeto semelhante a um pênis, denominado ‘olisbos’ ou ‘dildo’, usado para satisfação homossexual ou auto-erótica.Os atenienses consideravam o tribadismo mais comum em Esparta. Plutarco mencionou que em Esparta: ‘O amor era encarado com tanta honra que até as mais respeitáveis mulheres ficavam enfeitiçadas por mocinhas’. A ilha de Leucas também era ‘suspeita’, parcialmente, porque o primeiro livro com posturas tribádicas, segundo se dizia, tinha sido escrito por uma leucadiana, Filênis. Entretanto, Lesbos é que foi encarada como a pátria espiritual, aquela ilha onde a ardente Safo amou e cantou. Com o passar do tempo, seu nome e o da ilha começaram a alcançar um significado especial: ‘amor lesbiano’, o qual foi usado após a palavra tribadismo cair em desuso.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Annemarie Schwarzenbach

Ela sempre esteve com o pé na estrada, uma vida errante sem fim e total ausência de esperança. Foi descrita por poetas e admiradores, como anjo inconsolável, e pelo escritor Thomas Mann, o célebre autor de "Morte em Veneza", que a conheceu muito bem quando amiga de seus transgressores e drogados filhos Erika e Klaus, como anjo devastado. Anais Nin encantou-se com a garota alta, magra e sombria, imaginando ser ela a sua própria alma que a visitava. Ela sempre despertou amores impossíveis. Annemarie Schwarzenbach, confundida muitas vezes com um rapaz pelo seu aspecto andrógino, nasceu em 1908, em Zurique, Suíça, filha de um proprietário de um império têxtil, foi educada nos melhores internatos para moças ricas. Formada em História, publicou "Amigos de Bernhard", obra elogiada pela crítica e mudou-se para Berlim onde foi acolhida pela elite intelectual. Escritora atormentada e viciada em morfina, íntima dos malditos Mann, suicida em potencial, embora tenha morrido acidentalmente aos 34 anos, de uma queda de bicicleta, após hemorragia cerebral, também foi correspondente de guerra, arqueóloga e fotógrafa. Lésbica transformada em ícone gay, Annemarie mergulhou no lado sombrio da vida em uma existência dolorosa entre fugas, vícios, uma eterna e desesperada busca do amor e uma difícil relação com uma opressora e sufocante mãe. Seus escritos falam de amores homossexuais. Ainda na Alemanha, antes de fugir do nazismo, escreve a peça histórica "Cromwell". Apaixonada por Erika Mann e, não correspondida, parte para uma viagem de sete meses pela Ásia e termina rompendo definitivamente com a sua família, esta mais preocupada com o julgamento da sociedade e também adepta ao nazismo. Viajou de automóvel, um velho Ford, da Suiça ao Afganistão, passando pela Itália, Iugoslávia, Bulgária, Turquia e Irã, correndo do terror hitleriano na companhia da amante jornalista e escritora Ella Maillart (foto) que mais tarde, escreveu sobre Annemarie: ‘escolheu uma vida complicada, a estrada cruel do inferno. Acreditava no sofrimento. O venerava como a fonte de toda grandeza’. Ella Maillart acabou cansada de sua desequilibrada acompanhante e amante, do demônio que a corroía, de suas crises, de suas recaídas na droga, de seu excesso de sensibilidade. Porém nunca deixou de se sentir atraída pelo seu encanto e sua profunda vulnerabilidade. No seu livro "Morte na Pérsia" (Tod in Persien), Annemarie fala de suas várias passagens no Irã, uma terra desértica onde projetou o seu sofrimento, um país que oferecia um território de tentações para seus vícios, suas crises mentais e seus amores homossexuais. Os cachimbos de haxixe e a vodka tomada furiosamente, a necessidade de comprometer-se na luta contra o nazismo, a complexa relação amorosa com uma garota de Teerã, filha do embaixador turco, e o seu passageiro casamento de conveniência com um diplomata francês para dissimular seus romances com outras mulheres. A velha Pérsia, era o lugar onde exorcizava sua angústia, seus medos e suas obsessões. Uma existência que ela mesma resumiu num grito pavoroso: "Deixem-me sofrer!". Depois de muitos anos de esquecimento, e graças aos esforços de Ella Maillart, a importância de Annemarie Schwarzenbach foi resgatada nos anos 80 com a publicação suíça de suas obras.

Alice Walker

Alice Malsenior Walker, escritora e feminista sempre foi uma ativista pelos direitos dos negros e das mulheres, destacando-se na luta contra o ‘apartheid’ e contra a mutilação genital feminina em países africanos. De origem africana, filha de agricultores nasceu na Geórgia em 1944, iniciou sua carreira de escritora com ‘Once’, um volume de poesias. Escreveu também o livro ‘De amor de desespero’, uma coletânea de vários contos, uma obra composta pelas vozes de várias mulheres negras do sul dos EUA, mulheres diferentes com seus temores, desafios e sonhos. Mas Alice Walker alcançou fama mundial com ‘The Color Purple’, premiado com o ‘Pulitzer’, e dando origem a um dos mais belos filmes de Steven Spielberg, com a atriz Whoopi Goldberg no papel principal e traduzido no Brasil como ‘A Cor Púrpura’.
Em 2006, Alice falou de sua relação amorosa com a cantora Tracy Chapman durante uma entrevista para o ‘The Guardian’.Um dos assuntos recorrentes nos trabalhos de Alice Walker é a insistência em buscar a verdade nas relações entre luta e mudança na dolorosa vida das pessoas negras, motivo de protesto da escritora, principalmente das negras. A forma da narrativa de ‘The Color Purple’, é epistolar, técnica literária que consiste em desenvolver a história principalmente através de cartas, que era o modo de expressão mais utilizado no Oeste. As feministas históricas acreditavam que elas eram as principais fontes de informações objetivas e subjetivas dos fatos da vida diária das mulheres e enfatizavam a opressão das mulheres negras vividas nas suas relações com os homens negros (pais, irmãos, maridos, amantes) e a solidariedade mútua que precisavam ter para se auto-libertarem. Alice aborda o proibido na narrativa em tela, focalizando o incesto e retrata a relação lésbica como natural e livre.O período histórico retratado é um ano antes de 1920 e depois do final da escravidão nos Estados Unidos, que ocorreu oficialmente em 1865. Na obra, Alice Walker constrói com sensibilidade e talento, sua maior personagem: Celie, uma mulher negra sulista, com apenas 14 anos, quase analfabeta, que vive em uma realidade dura de pobreza, opressão e desamor e que escreve cartas para Deus, única forma de manter a sanidade e de expressar seus sentimentos e observações sobre a vida. Celie não era considerada como pessoa, mas sim tratada como objeto. O padrasto, que a violentou, e o marido acabaram com sua auto-estima, relembrando-a sempre que era apenas uma pobre e feia mulher negra, nada mais que isso. Cellie representa todas as mulheres que vivem na sombra de maridos dominadores. É uma alma cheia de anseios e sentimentos que luta com suas armas sutis para manter a sua dignidade.Os homens são opressores brutais, inimigos. Shug Avery, uma sensual cantora de blues e Celie se apaixonam. Desde que aprende a amar a si mesma, ama os outros e Celie descobre a sexualidade através da relação lésbica com Shug Avery e parte com ela para Memphis, libertando-se da escravidão e abusos que o marido lhe infligia. Para Celie, essa relação é a única escolha e inicia uma vida nova e constrói sua identidade como ser humano, como mulher. O amor por outra mulher abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher no qual a identificação com outro ser igual possibilita a auto-integração do sujeito feminino.

berenice abbott

A fotógrafa que foi aprendiz de Man Ray, e não se contentou só com isso.
Ela foi a primeira fotógrafa a ser admitida na Academia Americana de Artes e Letras, em 1983, quando já octogenária. Foi assistente de Man Ray, um dos nomes mais importantes do movimento vanguardista da década de 1920, responsável por inovações artísticas na fotografia, até o dia em que a mega-mecenas Peggy Guggenheim negou-se a posar para o fotógrafo surrealista e disse preferir os serviços dela, a aprendiz.Viveu o auge dos loucos anos entre o Greenwich Village novaiorquino, a Rive Gauche parisiense e a vida boêmia de Berlim. E era lésbica. Berenice Abbott nasceu em Springfield, Ohio, no dia 17 de julho de 1898. Mal terminou a adolescência, mudou-se para a cosmopolita Nova York onde deu de cara com uma das trupes de teatro mais bacanas da cidade: o ‘Provincetown Players’, grupo de vanguarda que revelou os escritores Eugene O’Neill e Djuna Barnes. Tornou-se mais uma da turma até que, em 1921, como quase todos os artistas do Greenwich Village e com apenas seis dólares no bolso, partiu para a Europa com planos para uma vida nova.Disse a quem ficava que, se era para morrer de fome, melhor morrer em Paris. Não morreu de fome, mas pode-se dizer que morreu de amores. Sua carrasca e algoz foi uma escultora americana que conheceu durante uma breve, mas inesquecível estada em Berlim. Seu nome era Thelma Wood, tida como irresistível, um animal sexual, uma beberrona andrógina que usava os cabelos curtos e seduzia a todos. Abbott não resistiu e apaixonou-se por Thelma. Thelma também se apaixonou por algum tempo. Até entrar em cena a escritora Djuna Barnes (veja aqui a história delas), antiga conhecida de Abbott, que foi apresentada a Thelma, e elas caíram de amores deixando Berenice a ver navios.Abbott jamais perdoou Djuna por ter lhe roubado a namorada, mas nunca hostilizou Thelma. Talvez porque soubesse que Thelma era assim mesmo, irremediavelmente sedutora o que Djuna Barnes haveria de descobrir alguns anos depois, para seu enorme desgosto. Deixando Thelma, Djuna e Berlim para trás, Berenice voltou a Paris onde começou a ganhar um dinheirinho como assistente de outro camarada do Village, o fotógrafo Man Ray. Com Ray ela aprendeu tudo sobre fotografia e logo colocou suas asinhas para fora. Revelando-se uma excelente retratista, Abbott passou a ser mais e mais solicitada por alguns clientes bacanas, como Peggy Guggenheim, despertando um enorme ciúme em Ray.Ela, que já era famosa pela falta de diplomacia, brigou com o fotógrafo e largou o emprego. Mas andar com suas próprias pernas não foi tão difícil e o sucesso logo bateu à sua porta. Abbott fotografou muito artista interessante, até a sua desafeta Djuna e sua ex Thelma, e ainda tinha tempo e dinheiro para gastar na noite parisiense. Certa vez, ela e a namoradinha da hora, a atriz Eva La Gallienne, resolveram arriscar-se pelos barzinhos lésbicos mais barra pesada e acabaram detidas pela polícia.Bons tempos, loucos anos! Logo após a depressão americana de 1929 Abbott resolveu que era hora de voltar a Nova York e iniciou seu longo projeto 'Changing New York', um registro fotográfico dos prédios, da população e da paisagem urbana cada vez mais em mutação. Este acabou se tornando seu trabalho mais conhecido, e pelo qual ela é hoje considerada um gênio da fotografia. Depois, na década de 1950, passou a atuar na área científica, fotografando campos magnéticos e pêndulos, colocando a imagem a serviço da ciência.Abbott foi inventora de algumas tecnologias e aparelhos fotográficos, mas perdeu muito dinheiro com essas invenções que, apesar de geniais, eram pouco comerciais. Ao final da vida contraiu um enfisema, fruto de muitos anos respirando produtos químicos para revelar filmes, muito tempo fotografando ao relento no alto dos prédios nova-iorquinos e décadas fumando os habituais e indispensáveis cigarros. Morreu tranqüila num mês de dezembro de 1991, aos 93 anos de idade.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Marcela e Elisa duas Lésbicas do Porto


Marcela e Elisa, duas mulheres da Corunha que casaram em 8 de Junho de 1901, pela igreja. Na foto da boda, percebe-se como: Elisa cortou o cabelo e compareceu vestida de homem, transformada num indivíduo chamado Mario, entretanto convertido ao cristianismo e baptizado. A mentira, porém, durou pouco tempo.
As duas mulheres foram descobertas e viram-se acossadas por dezenas de títulos de jornais: “Casamento sem homem”. Marcela e Elisa fugiram para o Porto, pensando que aqui, num país estrangeiro, estariam a salvo da perseguição, mas, no dia seguinte, acabaram por ser presas. A cidade achou que eram “duas desgraçadas” e ficaram 13 dias na prisão. Libertadas, ficaram a morar no Porto o mais discretamente que puderam e, no início de 1902, Marcela acabou por parir um filho, gerado não se sabe por quem. Nesse mesmo ano, o casal partiu para Buenos Aires.
Podemos notar que há muito anos o lesbianismo é motivo de castigo para as mulheres, mesmo hoje ainda existe muito homofobismo apesar de ja ser cosiderado crime.

jane bowles e sherifa

Em tempos de polarização entre ocidente e oriente vale a pena lembrar de um curioso caso de amor entre duas mulheres durante os anos 50 e 60. O romance entre a escritora americana Jane Bowles (foto) e a marroquina Cherifa foi cercado de assombro, suspeitas e desconfianças de todos que as conheciam, árabes ou ocidentais. O motivo para tanta intriga foi simplesmente o enorme fosso entre duas culturas tão distantes. E, no entanto, o amor brotou entre as duas mulheres, a despeito da torcida contrária de ambos os lados. O ano é 1947 e Jane e Paul Bowles, um casal muito moderno de escritores americanos, chega para uma longa temporada em Tânger, no Marrocos. Entediado da vida na América, Paul vivia buscando aventuras em países exóticos. Nem sempre Jane o acompanhava e nem mesmo Paul esperava que ela o fizesse - afinal, aquele não era um casamento típico. Para completar, Paul era gay, Jane era lésbica e o casamento, pasmem, não era de fachada - eles se amavam verdadeiramente. Quando chegaram ao Marrocos - para morar definitivamente - o sentimento nacionalista da população começava a tomar proporções grandiosas, inspirado pela crescente popularidade da Liga Árabe. O país, no entanto, continuava sob tutela da França e o ambiente era aparentemente calmo.

Um dia, durante uma visita ao mercado da cidade, Jane ficou fascinada com uma vendedora de uma barraca de grãos - Cherifa. Ao contrário de Paul, que conseguia namoradinhos árabes em cada esquina, Jane logo descobriu a tarefa dificílima de penetrar no mundo das mulheres árabes, sempre escondidas atrás dos véus e dos muros dos haréns. Mas a americana gostava de aventuras e era persistente. Logo ficou amiga de Cherifa, mas percebeu que não podia convidá-la para ir ao seu quarto de hotel e nem seria convidada para conhecer a casa de Cherifa em Medina. Tudo isso porque, sendo muçulmana, Cherifa precisava da permissão de um homem de sua família para sair de casa ou para convidar qualquer um a entrar em sua própria casa. Convidar Jane, então, era uma heresia! Primeiro, tratava-se de uma "inimiga" européia. Não adiantava Jane explicar que era americana - para eles, ocidental era tudo a mesma coisa. Em segundo lugar, Jane era uma "nazarena", como os marroquinos costumavam chamar os cristãos em geral. Pouco facilitava Jane dizer que era judia - ela era muito diferente dos judeus de Tânger, pobres e de pele escura, que moravam em Medina (cidade velha) e com os quais os marroquinos tinham familiaridade. Lembrem-se: o estado de Israel ainda não existia e judeus e árabes não eram inimigos declarados ainda. Mesmo diante de tantos problemas e mal-entendidos, o amor e a atração falaram mais alto: Jane e Cherifa começaram a namorar. Pensando em tornar tudo mais fácil, Jane saiu do hotel e alugou uma casa em Medina para que Cherifa pudesse freqüentá-la. Mesmo assim as coisas se complicaram. Cherifa só aparecia quando Jane lhe dava algum presente. A escritora americana logo entrou em crise com a situação: ora Charifa lhe pedia uma raquete de tênis, ora um par de sapatos e chegou até a pedir um táxi para trabalhar como motorista em Tânger! Não demorou muito para os amigos americanos dos Bowles desconfiarem da marroquina: ela era uma interesseira que não dava a mínima para o amor de Jane. Seria verdade? Ou apenas outro mal-entendido? O que os amigos americanos não percebiam é que os familiares de Cherifa também a pressionavam do outro lado: Cherifa precisava tirar algum lucro material da relação. Segundo o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, o marido deve sustentar a sua mulher e, portanto, Jane deveria sustentar Cherifa! Não que os familiares de Cherifa aprovassem ou reconhecessem a verdadeira natureza de sua relação com Jane mas, se a marroquina dedicava-se tanto à americana, a ponto de praticamente morar na mesma casa, era natural que existisse uma compensação financeira. Mas não adiantava Jane explicar. Os amigos dos Bowles e os familiares de Cherifa achavam aquela relação muito estranha. A situação chegou ao ápice dez anos depois quando Jane Bowles sofreu um sério derrame que deixou sua capacidade de ler e escrever comprometida. Entre a comunidade americana em Tânger o boato era que Cherifa havia envenenado a sua amante - até mesmo Paul partilhava dessa suspeita. O cerco ao redor de Cherifa aumentou quando um criado achou pequenos patuás espalhados pela casa. Cherifa disse que sim, fora ela quem fizera os patuás, mas eram apenas uma mandinga para "pegar amor". Ninguém acreditou. Americanos que sempre ridicularizaram os hábitos e costumes primitivos dos marroquinos agora acreditavam na magia negra supostamente perpetrada por Cherifa. Eles a acusavam de ter tentado matar Jane e se esqueciam que a escritora americana era uma hipertensa que não tomava remédios, já sofrera alguns ataques e que bebia uma garrafa de gim por dia, acompanhada de 3 maços de cigarros. Recuperada após vários tratamentos na América e Europa (mas ainda com afasia) Jane voltou a Tânger para morar com Cherifa. Coincidentemente, seu regresso foi logo após o Marrocos ter declarado sua independência, libertando-se da tutela européia depois de coroar o rei Mohammad V. Desta vez Jane encontrou uma Cherifa de cabeça erguida, talvez mais orgulhosa pela autonomia de seu país. Jane percebeu esta mudança quando, durante um pileque num bar, começou a distribuir dinheiro e as roupas que usava para quem passasse a sua frente. Cherifa que, como sempre, estava ao seu lado não aceitou nem um tostão. Desta vez recusou-se a receber qualquer coisa de Jane. Mas nunca a abandonou. Cuidou da amiga/amante americana enquanto Paul, o marido de Jane, viajava pelo mundo, para outros países mais exóticos, mais distantes e mais ao oriente - mais para lá ainda de Marrakesh. Jane Bowles morreu em 1973, sozinha, numa clínica em Málaga, Espanha, depois de ser internada pelo marido. Paul morreu há poucos anos atrás. Quanto a Cherifa, ninguém sabe se está viva ou morta.

bonny e mary read

a maioria dos historiadores acha que ela nasceu em Kinsale, na Irlanda em 1697 e como Anne Cormac. Filha ilegítima do advogado William Cormac e de sua empregada, Mary Brennan. A esposa de William fez de seu adultério um ato público, assim depois de perder sua reputação, William com sua nova esposa e filha recém-nascida decidiu deixar a Irlanda e iniciar sua carreira de advogado novamente. Eles compraram uma plantação no mundo novo da pré-independência e assim Anne foi criada até os treze anos nos EUA, na Carolina do Sul. Embora fosse filha de um rico advogado e proprietário de plantações, seu cabelo vermelho era cortado curto, sua cara era suja, e seus hábitos eram brutos. Conforme notas, Anne "cresceu amarrada, e era menima exaltada, de um temperamento feroz e corajoso" que mais de uma vez lhe deixou em situação complicada e dolorosa. Depois de perder sua mãe quando ainda era adolescente, Anne foi tomada conta pela empregada doméstica. Existem muitas estórias sobre seus 10 anos de idade; alguns dizem que Anne assassinou a empregada com uma faca, e existem outras que dizem sobre um homem jovem que ela colocou no hospital por diversas semanas, depois de sua tentativa fracassada de agressão sexual contra Anne. Mas aparte dos ataques ocasionais de seu temperamento era uma filha boa e obediente. Anne Bonny era uma mulher forte e independente, e que estava à frente do seu tempo, quando ainda era época que o homem tomava todas as decisões importantes, e época em que as mulheres não tinham direitos. Anos depois Anne era vista freqüentando os tavernas do porto. Seu pai deserdou-a quando ela fugiu com o amante James Bonny; por vingança, ela queimou sua plantação, em seguida fugiu para uma enseada controlada por piratas. Num curto espaço de tempo, ela descartou seu marido, e foi viver com o pirata Capitão Jennings e sua amante Meg. Aconselhada a conseguir alguma proteção masculina, transformou-se na amante de Chidley Bayard, o homem mais rico da ilha. Mas finalmente, ela abandonou Bayard pelo pirata John "Calico Jack" Rackham. Outros amigos homens de Anne foram gays, como Pierre Bouspeut ou chamado simplesmente de "Pierre, o pirata homossexual", que trajava vestido e era o designer de roupas finas de veludo e de seda.

Mary Read - usava o pseudônimo de "Mark" Read. A mãe de Mary há muito tempo atrás, na Inglaterra, vestia sua filha como um menino e fingindo assim que era seu filho a fim assegurar a herança dos avós paternos de Mary, que era reservado para um filho do sexo masculino. Mary veio eventualmente preferir tanto seu papel masculino que sua mãe deserdou-a. Ela então tornou-se aprendiz de sapateiro, e depois fugiu para juntar-se ao exército como um soldado. Ela casou com um soldado mas após três anos, seu marido morreu e assim ela novamente voltou a vestir roupas de homem e passou a assinar como um mercador holandês chamado Mark Read. Quando o navio em que estava foi capturado por piratas ingleses, ela decidiu juntar-se a eles.

No porto de New Providence, Mary Read encontrou-se com Anne Bonny e tornaram-se rapidamente amigas. Mas, o marido de Anne Bonny, James, reapareceu reclamando sua esposa, isto é, sua propriedade. Ele a sequestrou e trouxe-a amarrada e nua diante do governador, e este sugeriu o "divórcio pelo leilão", mas Anne recusou ser, como ela mesma disse, “comprada e vendida como um porco ou o gado” e nenhum comprador ousou reivindicar tal "hellcat" (uma senhora com temperamento feroz). Diante disso o governador foi forçado a libertá-la na condição de que ela retornasse ao seu senhor legal, mas James, que somente queria o dinheiro, fugiu com medo da tempestade que tinha causado. Anne e Mary, juntas, prepararam assim dentro da corveta uma perseguição a James; ele escapou mas elas queimaram seu negócios. No devido tempo, o grupo pirata de Anne foi refeito, com Anne e “Mark” constantemente juntas a bordo do navio. Esta intimidade despertou o ciúme de Calico Jack, que ameaçou cortar a garganta de “Mark”, foi quando descobriu ‘Mark” estendida na cama com Anne, nua e visivelmente uma mulher. Apesar desta suposta descoberta do verdadeiro sexo de "Mark", Anne e Mary (a quem parou de chamar a si mesma de "Mark"), ficaram inseparáveis, e ambas alternavam-se em vestir roupas masculinas e femininas. No devido tempo pegaram o comando de outro navio, e os navios-de-guerra foram enviados para capturar "aquelas mulheres infames." Elas abandonaram todo cuidado e invadiram numerosos navios. E uma das vítimas de seus atos de pirataria foi a rainha real. Finalmente Anne e Mary foram capturadas pelo capitão Barnet. No calor desta batalha final seu grupo as abandonou recusando-se a lutar. Elas e seu grupo pirata foram trazidos à julgamento na Jamaica, e culpadas por pirataria em 28 de novembro de 1720, e sentenciadas à forca. Anne e Mary rapidamente "defenderam suas barrigas" apesar de nenhuma das duas estarem realmente grávidas, e foram perdoadas. Este era um pedido comum entre mulheres sentenciadas à morte, a ponto que nenhuma corte enforcaria a vida de um inocente embora estivesse por nascer. Anne Bonny visitou Calico antes que fosse enforcado, e dito "estou triste por ver você nessa situação, mas se você tivesse lutado como um homem não teria que agora morrer como um cão." Mary morreu de uma febre contraída na prisão, e Anne apenas desapareceu. Uma história improvável é que casou-se e retornou a Charleston. Uma história ainda mais improvável é que entrou em um convento de freiras. A literatura pirata não é anotada com exatidão, e nunca houve toda uma completa pesquisa sobre as vidas de Anne Bonny e de Mary Read.

moedas cunhadas em homenagem a Anne Bonny e Mary Read

Nota: A história acima parece ser a mais exata e foi recolhida dos documentos mais originais da época. A evidência de sua homossexualidade não é assim bem definido, e a maioria era bissexual, assim o termo "lésbicas" não é estritamente exato. Alguns historiadores (homens) nos fizeram acreditar que Anne tinha rasgado as roupas de Mary, e ela mesma tinha descoberto o verdadeiro sexo de “Mark”. Isto é altamente improvável. As duas mulheres já tinham sido íntimas tempos atrás e por demasiado tempo e compartilharam de um estilo de vida tão difícil que era impossível não estarem inteiramente familiarizadas uma com o sexo da outra. E mesmo Mary se fingindo ser um homem, certamente Pierre (o amigo gay de Anne) teria descoberto a verdade há muito tempo atrás. O fato de retirar do episódio as partes consideradas incedentes (bowdlerization) e as tentativas de "explicar isso de outro modo" são típicos de como este par ousado é tratado; Anne Bonny freqüentemente aparece na literatura para crianças e em algumas caixas de cereais do tipo Shredded Wheat, onde ela é convencionalmente "normalizada" ao ser retratada como meramente uma senhora de um capitão pirata, ao invés da líder que ela realmente foi. O episódio em que Calico Jack descobre as duas juntas na cabine, na cama e sem roupas, tornou-se mais preocupante para os historiadores heterosexuais que deviam ter visto algo nisso. Sobretudo, é ímpar que as únicas duas piratas mulheres nos registros da históricos deviam ter terminado juntas, e nós não podemos levemente admitir seu amor óbvio um pela outra. Mas é impossível ignorar totalmente o ambiente lésbico de seu relacionamento e devemos levar em consideração o fato que agiram juntas como um casal e obviamente amarem uma a outra; assim a evidência sugere que devem ser relevantes para qualquer história de experiência lésbica.

colette e missy

O beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge
Um dos maiores ícones literários do país das belas letras, a escritora francesa Colette era também sinônimo de irreverência, escândalo e liberação femininos. Nascida em 28 de janeiro de 1873, Colette começou a escrever sob o chicotinho de seu marido, Henri Gauthier-Villars (conhecido como Willy), que a trancava num quarto até que completasse algumas dezenas de páginas. Não pensem que o marido fazia isto para o bem da esposa: Willy a explorava, mantendo Colette no anonimato, assinando ele próprio os livros da escritora e embolsando seus direitos autorais. Direitos, aliás, polpudos, pois os romances da série “Claudine” se tornaram sucesso absoluto no país. Um dia, Colette não agüentou mais e revelou ser a verdadeira autora de “Claudine na Escola”, “Claudine em Paris” e os outros que se seguiram. Aproveitando o embalo e o gosto doce do reconhecimento, pediu o divórcio e finalmente se libertou do jugo do marido-escroque (ou começou a se libertar, já que o processo do divórcio e da retomada de seus direitos autorais foi bem demorado e complicado). Desejando novas experiências a partir da liberdade inédita, Colette resolveu aventurar-se no teatro, onde conheceu a baronesa de Morny, que patrocinava eventos no Moulin Rouge. A baronesa, apelidada de Missy, logo se apaixonou por Colette e foi plenamente correspondida. A escritora, sedenta de aventuras e entusiasmada pela nova paixão, propôs à baronesa-amante que atuassem juntas, como atrizes, numa peça de sua autoria.

Missy topou, mas, preocupada com possíveis reações adversas de seus pares (a nobreza francesa não admitia que um de seus membros atuasse em cabarés), resolveu atuar disfarçada, sob pseudônimo de Yissim e fazendo um papel masculino (foto). Assim, em meio a um tórrido romance lésbico, nasceu a peça “Revê d´Égypte” (Sonho do Egito), um dos maiores escândalos do Moulin Rouge. Não se sabe muito bem quem revelou, antecipadamente, a identidade secreta de Yissim. O fato é que, na noite de estréia, vários membros da nobreza se amontoavam nas primeiras fileiras para detonar e vaiar Missy e Colette. Antes mesmo que abrissem as cortinas, já se ouviam apupos da platéia que gritava “fora, sapatões!”, enquanto atiravam ao palco cascas de laranja, almofadas dos assentos, moedas velhas e até dentes de alho. Apesar da gritaria, as duas iniciaram a performance, procurando desviar dos objetos que eram atirados. Colette fazia o papel de uma múmia que se apaixonava pelo seu descobridor, o arqueólogo interpretado por Missy. Quando então o arqueólogo tomou em seus braços a múmia seminua e deu-lhe um prolongado beijo na boca, o Moulin Rouge veio abaixo. No dia seguinte, os parentes da baronesa Missy exigiram que a polícia local proibisse o espetáculo. No entanto, a peça já havia atraído um público considerável, que fazia filas para a segunda apresentação. Como o administrador do teatro não queria desperdiçar um sucesso promissor, a produção tentou encontrar uma saída que não significasse o fim das exibições. Assim, para acalmar os ânimos dos parentes da baronesa, decidiu-se que Yissim (Missy) seria substituída pelo ator Georges Wague. Entrevistada logo após esta segunda apresentação, Colette lamentou “a covardia das pessoas que me insultaram”. Missy, mais calma, pediu que Colette “esquecesse aquelas pessoas”, ao que a escritora-atriz respondeu: “sim, contanto que eles nos deixem em paz”. Parece que seu pedido foi atendido, em parte: o espetáculo continuou em cartaz e, mesmo sem atuar, Missy permaneceu trabalhando nos bastidores. Depois de Paris, a peça viajou para outras cidades francesas. Colette e Missy continuaram enamoradas por muito tempo, provocando a claque conservadora, embaladas e inspiradas pelo beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge naquele janeiro de 1907.